Capítulo 2: Prisões no Pavilhão dos Carneiros
Hu Qi admitiu em seu depoimento que era um agente japonês infiltrado, disfarçado de chinês, empenhado em atividades secretas, sendo responsável por missões de assassinato, incitação de tumultos e punições. Havia outros agentes como ele, não apenas um, mas todos operavam em linhas isoladas, sem conhecimento mútuo.
Em menos de meio dia, desde a recepção do informe até a captura e o interrogatório minucioso, foi finalmente confirmada a verdadeira identidade de Hu Qi como agente japonês. A rapidez e precisão de suas ações eram dignas de admiração.
Xu Qingshi era um policial veterano, com experiência em confrontos contra japoneses, conhecia bem o caráter deles. Capturar agentes japoneses ocultos era tarefa árdua; esses homens disfarçavam-se com maestria e, mesmo capturados, jamais revelavam sua verdadeira identidade.
Xu Qingyun, entretanto, conseguiu extrair todas as informações em pouco tempo — feito raro e digno de nota, surpreendendo-o profundamente.
“Qingyun, venha comigo.”
Xu Qingyun seguiu o primo até o pátio em frente à sala de interrogatórios.
“Qingyun, você se saiu muito bem desta vez, excelente trabalho.” Xu Qingshi sorriu e elogiou, sentindo orgulho do irmão mais novo. Antes, havia forçado Xu Qingyun a assumir o posto de chefe interino; agora, quem ousaria acusá-lo de favoritismo?
Após os elogios, Xu Qingshi perguntou diretamente: “Como soube onde estava Hu Qi e como descobriu que ele era um agente japonês?”
“Foi uma pista fornecida pelo meu informante, Gou Fugui...”
Xu Qingyun explicou suavemente toda a situação. Gou Fugui era um nome conhecido por Xu Qingshi, um ladrão de certa fama em Tianjin, mas de reputação justa e confiável.
Ladrão, figura marginal, não ousava desafiar a polícia; Xu Qingyun sabia que esses homens tinham as informações mais atualizadas, e ao adquirir informantes, buscou representantes de todos os estratos sociais.
Ao ouvir toda a explicação, Xu Qingshi ficou atônito, perguntando incrédulo: “Você deduziu que ele era um agente japonês apenas pelas marcas em seus pés?”
“Lembra-se do caso do Lanternário no mês passado? O corpo do japonês morto foi recolhido por nossa delegacia; vi em Hu Qi as mesmas marcas nos pés. Intensifiquei o interrogatório e, incapaz de suportar, ele confessou.”
Xu Qingyun assentiu. O caso do Lanternário ocorreu no décimo quinto dia do primeiro mês, durante a festividade das lanternas, quando um comerciante japonês se envolveu em uma briga e foi morto por um delinquente. O corpo ficou sob a responsabilidade de Xu Qingyun.
“Entendo... Mas sua atenção aos detalhes é admirável”, comentou Xu Qingshi, satisfeito com as respostas, ciente de que o mérito era todo do primo. Sentia-se seguro quanto ao relatório que deveria apresentar, visando o benefício de ambos.
Capturaram um agente japonês! Não apenas eles, mas quantos policiais no país seriam capazes disso?
Mesmo o Departamento de Inteligência Militar, responsável pelo combate a agentes estrangeiros, raramente capturava tais espiões; desta vez, não apenas Xu Qingshi e Xu Qingyun, mas toda a Polícia de Tianjin teria algo a ostentar.
“Já comeram algo?” perguntou Xu Qingshi de súbito. Xu Qingyun balançou a cabeça: “Ainda não.”
“Leve-os para comer primeiro.” Xu Qingshi franziu o cenho, o olhar cheio de preocupação: a saúde do irmão era mais importante que o caso.
“Comam antes, não se preocupe; ninguém sabe que Hu Qi foi preso, podem agir mais tarde sem perder tempo.” Xu Qingshi insistiu: o esconderijo de Hu Qi e seus comparsas ficava longe; afiar o machado não atrapalha o corte da lenha, comer antes não retardaria a missão.
“Está bem, seguirei seu conselho.” Xu Qingyun assentiu, sabendo que agiria melhor de estômago cheio.
“Leve-os todos. Vocês realizaram grande feito, as despesas serão cobertas pela delegacia.”
“Obrigado, irmão.”
Xu Qingyun agradeceu com sinceridade. Xu Qingshi sorriu e alertou em voz baixa: “Ao sair com eles, vigie de perto. Não permita que ninguém saia sozinho.”
“Entendido.”
Xu Qingyun respondeu suavemente, mas sentiu-se apreensivo; sabia exatamente o que preocupava o irmão.
Os japoneses infiltravam-se por toda parte; quem imaginaria que alguém como Hu Qi era um espião? Implantar informantes na delegacia não era difícil para os japoneses; se a notícia vazasse, não apenas perderiam os suspeitos, mas também poderiam enfrentar perigo.
“Tudo certo, podem ir.” Xu Qingshi assentiu e chamou Zuo Jinfang para instruções particulares.
Xu Qingyun tinha nove subordinados, todos o acompanharam.
Dez homens para capturar dois; tinham superioridade numérica, além de vantagem estratégica, pois os espiões estavam expostos, enquanto eles agiam nas sombras.
“Chefe, para onde vamos comer?” perguntou Zuo Jinfang sorrindo, enquanto os demais olhavam para Xu Qingyun.
“Vamos ao Tong Ju Lou. Aviso desde já: comam à vontade, o quanto quiserem, mas não bebam, a missão é prioridade.”
“Pode deixar, não beberemos.”
Ao ouvir a proposta de Xu Qingyun, todos sorriram, o rosto iluminado pela expectativa.
Tong Ju Lou, localizado na movimentada Rua Beima, existia há apenas dez anos, mas ascendeu rapidamente graças ao seu charme singular e culinária de excelência, tornando-se um dos principais restaurantes de Tianjin.
Xu Qingyun não poupou seus homens, deu-lhes uma refeição farta; todos saíram com o estômago cheio. Zuo Jinfang, atento às ordens de Xu Qingshi, acompanhava qualquer um que fosse ao banheiro.
Os dois comparsas de Hu Qi estavam escondidos numa vila fora da cidade, distante.
Quando Xu Qingyun chegou, o céu já escurecia; durante o dia o sol brilhara, mas agora flocos de neve caíam, logo transformando-se numa tempestade, antecipando a noite.
“Qingyun, já confirmei: não estão na hospedaria, foram ao restaurante de sopa de carne de cordeiro perto do cais”, relatou Zuo Jinfang, astuto, enviado por Xu Qingyun à hospedaria onde residiam os espiões japoneses.
“Sabe onde fica?”
“Sim, já estive lá, a sopa de carne de cordeiro deles é excelente.”
Zuo Jinfang respondeu prontamente. Xu Qingyun não perguntou mais; sabia o local, e mesmo sob neve, era urgente capturá-los e trazê-los à delegacia.
Xu Qingyun conhecia como poucos as atrocidades dos japoneses.
A noite caiu, o vento frio rugia, a neve cobria a terra de branco, dando-lhe um manto argênteo; no canto da rua, o restaurante de sopa de carne de cordeiro, decadente, erguia-se, iluminado.
Xu Qingyun e seus homens chegaram, ocultando-se nas sombras.
Quatro trabalhadores, exaustos após o dia, buscaram refúgio neste lugar de luxo para eles.
O interior era silencioso; dois homens sentavam-se ao centro, enquanto os quatro trabalhadores, recém-chegados, acomodaram-se ao redor de uma mesa desgastada, próxima ao fogão, onde o calor era mais intenso.
“Senhora, quatro pães, uma tigela de sopa de carne de cordeiro!” alguém exclamou ansioso por seu prato favorito; o ambiente tornou-se animado, com outros pedindo suas iguarias.
“Jinfang, leve Yisheng lá dentro para investigar”, ordenou Xu Qingyun do lado de fora. Yisheng era o mais velho do grupo.
“Sim, Qingyun”, respondeu Zuo Jinfang, de aparência jovem, pouco acostumado ao trabalho pesado, contrastando com Yisheng, de rosto envelhecido, ideal para fingir ser pai e filho, atraindo menos atenção.
Ambos entraram, avistando de imediato os dois sentados ao centro.
Com base na descrição de Hu Qi, Zuo Jinfang confirmou que eram o alvo.
“Senhora, duas sopas de carne de cordeiro, seis pães”, pediu Zuo Jinfang; sentaram-se numa mesa livre, evitando olhar para os dois.
Poucos frequentadores, além da proprietária, todos eram homens solteiros.
Hoje era o dia do Dragão Erguendo a Cabeça; famílias permaneciam em casa, preparando pães cozidos, fritando ovos e pães, reunindo-se em torno da mesa. Os mais abastados serviam carne e bolos fritos; as crianças se lambuzavam, celebrando a melhor refeição do ano.
Os trabalhadores, que chegaram antes, já tinham pães e sopa de carne de cordeiro à frente; a pimenta vermelha, como sangue quente, era despejada na sopa, misturando-se ao branco, com gotas de óleo como lábios ardentes, o aroma excitando os paladares.
Alguns sorviam rapidamente a sopa quente, a mistura de picância e calor aliviando o corpo cansado de um dia de trabalho.
Enquanto bebiam, conversavam sobre assuntos domésticos; logo Zuo Jinfang serviu a sopa à mesa: “Pai, trabalhou o dia todo, coma um pouco primeiro.”
Zuo Jinfang sabia bem o papel que deveria desempenhar, seguindo à risca as instruções de Xu Qingyun, evitando contato visual com os dois alvos.
Antes de entrar, Xu Qingyun já os havia orientado: se os alvos estivessem dentro, permanecessem e comessem tranquilos; caso contrário, saíssem imediatamente.
Eles não saíram, sinalizando que o alvo estava de fato ali.
Xu Qingyun, em sua vida anterior, havia trabalhado lado a lado com a polícia, resolvendo casos complexos, absorvendo ensinamentos de dramas de espionagem, compreendendo a importância dos detalhes.
Os trabalhadores que chegaram primeiro, após comerem, partiram; o restaurante perdeu seu alvoroço, restando apenas as duas mesas, com Zuo Jinfang e Yisheng comendo rápido, enquanto os dois agentes japoneses continuavam a beber, observando-os ocasionalmente.
“Pague a conta.”
No balcão, Yisheng, cautelosamente, buscou no bolso interno um reluzente yuan de prata, pegou um palito de bambu da mesa e, delicadamente, removeu resíduos de carne entre os dentes, engolindo-os com um sorriso ingênuo.
“Pois não”, respondeu a proprietária, logo entregando o troco, que Yisheng guardou.
Os dois agentes japoneses não perderam os movimentos; olhavam com desprezo: esses chineses eram pobres, mesquinhos até para comer, indignos de possuir esta vasta terra, que, como o Nordeste, deveria pertencer ao Império.
A neve caía mais intensa; Zuo Jinfang e Yisheng pegaram seus chapéus de feltro, ajustaram-nos na porta, mãos dentro das mangas, empurraram a cortina e saíram.
Saíram naturalmente, sem despertar suspeitas dos agentes japoneses.
“Qingyun, estão lá dentro; além da proprietária, só eles dois.”
Ao sair, Zuo Jinfang relatou prontamente, desenhando no chão a disposição do restaurante, indicando onde estavam sentados os alvos.
“Qual a distância entre eles e o balcão?” Xu Qingyun, atento ao desenho na neve, perguntou.
“Três ou quatro passos.”
“O restaurante tem saída pelos fundos?”
“Sim, vi enquanto pagava.”
Desta vez, quem respondeu foi Yisheng, trinta e poucos anos, aparentando quarenta, policial há oito anos, perspicaz e experiente.