Capítulo Dois: O Retorno do Nono Tio
No instante em que Lin Feng desmaiou, as urnas de cerâmica às suas costas começaram a sussurrar entre si.
— Será que ele obteve uma grande fortuna?
— Sem dúvida! Aquela força aterradora... só de pensar, sinto o coração tomado por um temor inexplicável.
— Então estamos perdidos.
— Quando ele era apenas um mortal, já nos oprimia; se ficar ainda mais poderoso, passará a nos tratar como se nem fôssemos gente.
— Ora, mas nós, de fato, não somos humanos...
— Hã...
O que dizes faz tanto sentido, que me deixa sem palavras.
...
A noite se esvaiu, e quando Lin Feng despertou no dia seguinte, sentia o corpo inteiro tomado por uma dormência dolorosa, como se cada músculo clamasse por alívio.
— Ai, minhas costas...
Apoiando-se com uma das mãos na cintura, Lin Feng ergueu-se lentamente.
— Se soubesse, não teria vindo alimentar essa corja.
— Dormir uma noite num local tão carregado de energia yin, e não adoecer, só pode significar que minha saúde é de ferro.
Felizmente, o nono tio sempre o instigara a cultivar o corpo. Se fosse um homem comum, já estaria prostrado por grave enfermidade.
Logo, porém, uma alegria súbita iluminou o semblante de Lin Feng.
— De fato, a serpente demoníaca é formidável.
— Apenas um controle rudimentar já foi suficiente para assustar todos aqueles fantasmas. Isso quer dizer que, daqui em diante, possuirei também o poder de subjugar demônios e espíritos.
Num mundo habitado por monstros e espectros, a vida dos homens vale menos que o orvalho da manhã. Basta cruzar o caminho de uma donzela fantasma ou ter a casa invadida por um zumbi, e uma aldeia inteira pode ser varrida do mapa.
A vida humana é como o capim à beira da estrada!
Se não tivesse tomado o nono tio como mestre, talvez, neste instante, seu cadáver já repousasse em algum ossuário esquecido.
O estômago roncava, exigindo sustento.
O corpo exausto e sem forças.
Sem alternativa, Lin Feng preparou um mingau grosso de massa, formando pequenos nódulos que lançou na sopa, saciando-se como pôde.
Após a refeição, reclinou-se na cadeira de balanço no pátio, contemplando o céu com tranquila satisfação.
— Se nada ocorrer, hoje é o dia em que o mestre prometeu regressar.
— Uma reunião do clã... mas o que, afinal, pretende a sede de Maoshan?
Nestes anos, excetuando as cartas trocadas entre o nono tio e alguns irmãos do templo, Lin Feng jamais ouvira falar de uma assembleia de Maoshan.
A súbita convocação do mestre à sede, qual seria sua real razão?
Ainda assim, Lin Feng não se inquietava.
Afinal, trata-se do nono tio!
O grande mestre dos mortos-vivos, Lin Fengjiao!
Temido por zumbis e fantasmas, não há criatura demoníaca que sobreviva ao fio de sua espada.
Enquanto deixava a mente divagar, Lin Feng foi despertado por batidas na porta.
— Bang, bang, bang!
— O mestre voltou!
Tomado de excitação, Lin Feng saltou da cadeira de balanço e apressou-se até a entrada.
Antes de partir, o nono tio prometera: ao regressar, finalmente o aceitaria como discípulo direto, transmitindo-lhe os verdadeiros segredos de subjugar monstros e exorcizar demônios.
Por este dia, Lin Feng ansiava havia muito.
E queria também surpreender o mestre — não seria o primeiro discípulo autodidata?
— Mestre! Que saudade eu tinha de vós!
Abrindo a porta, Lin Feng não conteve o grito.
O nono tio, trazendo às costas uma sacola de viagem e vestindo uma túnica de tons sóbrios, encarou Lin Feng com aquele ar afetado e não conteve uma risada misturada a um muxoxo.
— Moleque travesso, sempre com essas palhaçadas...
Logo, porém, o olhar do nono tio tornou-se agudo, como se sua visão penetrasse os recantos da alma de Lin Feng.
Num instante, agarrou-lhe a mão esquerda, apertando-a com força de tenaz.
— Mestre, dói, dói... — Lin Feng implorou por clemência.
— Hmph! Garoto insensato, sempre aprontando na minha ausência.
— Por pouco não te perdeste! Queres que teu mestre, de cabelos brancos, enterre um discípulo de cabelos negros?
Resmungando, o nono tio largou-lhe a mão e atirou a sacola sobre Lin Feng, dirigindo-se com as mãos às costas ao salão principal do necrotério.
— Então? Conta-me o que aconteceu.
Lin Feng, desejoso de compartilhar sua alegria, relatou ao mestre todo o ocorrido, sem omitir detalhes.
— O quê? — O nono tio arregalou os olhos, pasmo.
— Disseste que uma serpente demoníaca fracassou na travessia da calamidade, e tu colheste a fortuna, obtendo o domínio sobre a alma da serpente?
Lin Feng acenou, convicto.
— Sim, mestre, se duvidas, posso-lhe mostrar.
Ao dizer isso, seu semblante transformou-se.
Córregos de energia comprimiram o ar do grande salão; atrás de Lin Feng, uma serpente colossal ondulava, exalando uma aura demoníaca avassaladora.
— Garoto de sorte! — exclamou o nono tio, admirado.
No íntimo, porém, um travo de amargura: por que, em minha juventude, não cruzei com tamanha fortuna?
Seria minha aparência insuficiente?
Comparações apenas conduzem à frustração.
— Hehe... — dissipando o espírito demoníaco, Lin Feng soltou um riso sem graça.
— Tudo graças ao mestre.
— Danado... — o nono tio sorriu, apontando-lhe o dedo, impotente.
— Tua esperteza não tem limites.
— Achas mesmo que se trata apenas da alma daquela serpente demoníaca? Enganas-te!
— Enganas-te redondamente!
— Aquela é a tua própria alma!
As palavras do nono tio deixaram Lin Feng atônito.
— Hã?
— Mestre, queres dizer que aquela serpente... sou eu?
Só pode ser brincadeira.
Desde a vida passada até esta, sua linhagem sempre foi humana, um vivo de carne e osso.
Mas o mestre jamais mentiu...
Lin Feng olhou-o, sedento por esclarecimento.
— Mestre?
— A verdade é que, no processo, a alma da serpente foi inteiramente aniquilada. Pode-se dizer que tiveste uma sorte descomunal, cruzando um demônio desses numa noite de tempestade.
— Por uma conjunção rara, frustraste o intento do demônio de tomar teu corpo, por isso digo: és um afortunado.
Aos olhos do nono tio, esse discípulo, sempre tão extraordinário, era verdadeiramente abençoado. Um homem comum jamais resistiria a uma possessão de tal criatura.
Lin Feng percebeu a direção dos pensamentos do mestre, mas preferiu alimentar o equívoco.
— Quando o raio destruiu a serpente demoníaca, sua alma imensa foi, sem querer, absorvida pela tua.
— Devido à sua força, tua alma assumiu espontaneamente a forma dela.
— Do contrário, acreditas que um demônio capaz de atravessar calamidades seria dominado por uma alma humana comum?
O nono tio suspirou, tomado de inveja.
— Planejava, ao regressar, ensinar-te a acender o brilho fetal, mas não contava que, por golpe de sorte, já tivesses superado tal estágio.
— E ainda fundiste tua essência a uma alma de dragão demoníaco do nível de um espírito sombrio — sorte que dez gerações não bastariam para obter.
O odor acre da inveja era tão forte que Lin Feng não pôde deixar de rir, constrangido.
— Hehe...
O nono tio, num piscar de olhos, desferiu-lhe um cascudo na cabeça.
— Rir? Zombar do mestre? Falta de respeito!
— Amanhã, copie-me o "Dao De Jing" dez vezes e entregue-o.
Agora sim, pensou Lin Feng, resignado.
Dez vezes o "Dao De Jing"?
Se soubesse, não teria rido.
Com um sorriso amargo, lamentou-se:
— Mestre, tenha piedade...
— Ainda ousas replicar? Vinte vezes!
— Nem mais uma palavra!