Capítulo 2 — Não é vergonhoso o suficiente se apenas se espalhar
Capítulo 2: Não é suficientemente vergonhoso se espalhar
O olhar inocente de Xu Lin, com seus olhos pequeninos e ingénuos, deixou toda a família sem palavras. Era a primeira vez que ouviam dizer que galinhas crescem comendo areia. Só podiam pensar que Xu Lin, aquela pequena peste, estava tentando enganá-los como se fossem idiotas.
— Com certeza foi você que misturou areia, sua maldita! Está descontente com o fato de te obrigarem a cozinhar todos os dias, e resolveu fazer maldade de propósito, não foi? — A velha Xu, com raiva, cerrou os dentes e, num impulso, engoliu o ovo, apontando para Xu Lin e amaldiçoando-a. Os insultos foram tão intensos que Xu Lin por pouco não virou a mesa.
— Eu juro que não fui eu! Estão me acusando injustamente. Se não acreditam, eu… eu como os ovos que sobraram! — Xu Lin, para provar sua inocência, estendeu a mão para pegar os poucos ovos restantes.
A família Xu não podia permitir aquilo. A pequena peste queria comer ovos? Sonhe, menina! Antes que os hashis de Xu Lin tocassem nos ovos, os poucos que restavam desapareceram do prato, indo parar na tigela de Xu Kun.
Ele, com um ar triunfante, insultou:
— Tsc! Sua inútil sem vergonha, você acha que merece comer uma coisa tão preciosa como ovos?
Depois de insultá-la, ergueu a tigela orgulhosamente e devorou todos os ovos, lançando a Xu Lin um olhar de provocação, cheio de vaidade.
Ah, tsc, tsc, tsc!
Xu Kun mal teve tempo de se vangloriar por três segundos antes de ser surpreendido pela areia nos ovos, que arranhou seus dentes. Imediatamente cuspiu os ovos, soltando várias bocas de comida, sentindo que ainda não era suficiente, precisando beber água e enxaguar a boca, sem tempo nem para xingar.
Xu Lin arqueou levemente as sobrancelhas: querem comer ovos? Hah! Eu deixo vocês comerem... nada.
Quero que vejam essas preciosidades sem poder engolir, que morram de raiva. Afinal, se não me deixam comer, ninguém vai comer.
A velha Xu, vendo os ovos cuspidos ao chão, sentiu uma dor aguda no rosto enrugado, batendo na mesa com ódio:
— Sua peste, foi de propósito! Espera, espera só para ver!
A velha queria pegar a tigela e jogá-la em Xu Lin, mas tinha pena do mingau dentro dela, então só restou xingar:
— Kun, mãe, tire o mingau dessa maldita! Depois vamos bater nela até cansar, deixar uns dias sem comer, pra ver se ela aprende a não nos prejudicar!
— Sim senhora — respondeu prontamente a mãe de Xu, colocando a tigela de mingau diante de Xu Kun, satisfeita no íntimo.
Economizou uma tigela de mingau, ainda que ralo a ponto de se ver o fundo, sem um grão de arroz. Não tinha coragem de dar à peste.
Xu Lin, mesmo tendo seu mingau roubado, não se irritou; permaneceu com o rosto impassível, sentada no canto. Era uma refeição que ela preparara com todo cuidado — precisava assistir à família comer até o fim.
A velha Xu lançou-lhe um olhar de ódio, aquela peste irritante, covarde, só de vê-la dava vontade de bater.
Como se quisesse demonstrar superioridade, a velha Xu pegou o mingau espesso e tomou um grande gole, mastigando com força, numa demonstração exagerada.
Croc!
Ai!
A velha Xu levou a mão à boca, os olhos triangulares arregalados de terror, sentindo um gosto salgado e metálico, além de... Usou a língua para tocar o dente da frente — vazio, completamente vazio! Seu dente fora arrancado!
A expressão de choque da velha Xu divertiu Xu Lin, que deixou escapar um sorriso, logo reprimido.
Não foi em vão o pequeno seixo que ela jogou de propósito na boca da velha!
A velha Xu abriu a boca e cuspiu o mingau, junto com um dente amarelo grande, uma visão repulsiva.
Xu Lin desviou silenciosamente o olhar, para não ver a cena.
— Meu dente, meu dente da frente! — A velha Xu, apontando para o dente amarelo, gritou de dor.
— Sua peste, você colocou pedra de propósito no mingau, não foi? Foi de propósito, maldita de coração podre, inútil, você...
A velha Xu estava furiosa, tremendo ao apontar para Xu Lin e xingando.
— Não fui eu, não! Estão me culpando injustamente — explicou Xu Lin, piscando os olhos de pêssego com inocência. — Eu também ia comer esse mingau, como poderia ter colocado pedra de propósito?
Ela negou vigorosamente, sem admitir uma só palavra, e ainda acrescentou:
— Será que não foram enganados ao comprar o arroz?
A velha Xu hesitou. Era verdade, atualmente o grão está escasso e caríssimo, talvez tenha sido adulterado com areia e pedras.
Ao lembrar que foi ela mesma quem comprou esse arroz no mercado negro, ficou ainda mais irritada.
Mas essa responsabilidade não era dela. Apontou novamente para Xu Lin e continuou a insultar. Não importava de quem era a culpa, o certo era xingar Xu Lin.
Xu Lin era o saco de pancadas da família Xu, a empregada, a velha vaca de carga!
Enquanto a velha Xu xingava, os membros da família já estavam acostumados e não intervieram, continuando a comer com a mesma expressão.
Mas era impossível comer direito naquela refeição, pois cada garfada vinha acompanhada de areia e pedra, até nas verduras.
Nada era comestível, até no pão de farinha mista havia pedrinhas.
O jantar foi um caos de galinhas e cães, entre gritos e insultos da velha Xu e outros, chamando a atenção dos vizinhos, que vieram assistir ao espetáculo.
Xu Lin, cabisbaixa e com as orelhas caídas, ficou na porta, ocasionalmente protestando de forma tímida, com uma inocência que não poderia ser maior.
Os vizinhos balançavam a cabeça ao ver a cena. Todos sabiam que a primogênita da família Xu era apenas um saco de pancadas: trabalhava mais, comia menos, apanhava com mais força e era insultada com mais crueldade.
Era uma infeliz que não conseguia se erguer, como um Ah Dou que não se sustenta, e quem a ajudasse só se prejudicaria.
Com o tempo, ninguém mais pensava em defendê-la, preferindo assistir ao espetáculo.
Ao ouvir que havia areia na comida da família Xu, alguns vizinhos incrédulos se aproximaram para verificar.
Remexeram toda a comida na mesa, sem encontrar um só grão de areia.
Isso provocou novas exclamações. A velha Huang, não suportando mais a cena, resolveu intervir:
— Família Xu, sei que vocês não gostam dessa menina, mas não precisam maltratá-la assim.
— Quem está maltratando? Você está cega? Não vê a areia na comida? — A velha Xu, lamentando o dente perdido, respondeu com insultos, não deixando a velha Huang continuar, fazendo-a revirar os olhos de raiva.
— Cega está você! Onde está a areia? — A velha Huang mexeu no mingau, que estava branco e perfumado, sem um só resíduo.
Olhou as verduras, cozidas perfeitamente, sem sinal de areia.
— Tem areia aqui? Não vejo nada, vou provar.
A esposa de Hu, sempre pronta a se aproveitar, se aproximou da mesa, pegou uma porção de verduras com hashis e pôs na boca, fazendo os membros da família Xu lamentarem a perda da comida e de seus dentes, com expressões estranhas.
Hmm? A esposa de Hu mastigou e achou as verduras deliciosas, nunca comera algo tão saboroso.
— Viu? Tem areia, é horrível para os dentes — disse a mãe Xu, olhos fixos na boca de Hu, lamentando a porção de verduras.
— É mesmo? Não senti nada, vou provar de novo.
A esposa de Hu pegou mais uma porção, restando apenas dois fios de verdura no prato.
Os presentes torceram o rosto, xingando mentalmente a esposa de Hu por ser tão aproveitadora, quem tira quase toda a comida dos outros assim? Se isso se espalhar, é vergonhoso demais.
Mas será que a comida da família Xu tinha mesmo areia? Se tivesse, como Hu podia comer tão bem?
— Dizem que o mingau também tem areia, certo? — indagou a esposa de Hu, olhos brilhando.
A velha Xu assentiu, cheia de dúvidas — havia mesmo areia e pedra no mingau, seu dente da frente estava ali como prova.
Vendo o gesto da velha Xu, os olhos de Hu brilharam ainda mais.
— Sério? Então vou provar para vocês.