Capítulo Dois: A Feiticeira e Arthur
O canto dos pássaros ressoava aos seus ouvidos, enquanto a floresta exuberante se estendia, coberta por vegetação desconhecida e flores silvestres. As árvores ancestrais, imponentes, ocultavam a luz do sol sob suas copas densas, mergulhando o ambiente em penumbra. Na noite passada, uma tempestade rugira sob ventos gélidos e cortantes; o solo, agora, encontrava-se tomado por lama e impresso pelas pegadas de feras errantes. Este era o bosque maldito, conhecido como o Cruzamento da Morte, um lugar impregnado de perigo e feitiçaria.
Su Xia despertou de seu torpor e, ao emergir do sono, absorveu também as lembranças e informações do jovem cujo corpo recém habitava.
Arthur, o tolo filho do barão Yalin, completara dezoito anos naquele dia e, seduzido por uma bela feiticeira, fora levado ao coração da floresta, onde encontrou seu fim nas presas de um lobo selvagem. Dois anos antes, Arthur, ao cavalgar por uma trilha rural, socorrera uma donzela desfalecida pela fome – Jessica, de extraordinária formosura – e, desde então, a má sorte o perseguia.
Su Xia recostou-se ao tronco de uma árvore, organizando os fragmentos de memória. Antes de tudo, o pai daquele homem morrera três anos atrás, deixando vago o posto de senhor feudal. O visconde Wayne, detentor de sua lealdade, era o principal beneficiário com a ausência de herdeiro. O barão Yalin, outrora aventureiro e arqueiro renomado, granjeara mérito para o Reino de Farlin, sendo recompensado pelo monarca com o título de senhor da vila de Sisthe e a baronia. Contudo, sem raízes familiares entre a nobreza e desprovido de sobrenome aristocrático, era alvo constante de desprezo nos círculos nobres.
Ainda assim, o barão Yalin fora um senhor admirável, garantindo prosperidade e bem-estar a seus camponeses e súditos. Quando Arthur era pequeno, o pai o levava consigo ao campo, incutindo-lhe valiosos ensinamentos.
Jessica, a feiticeira, mantinha com Arthur uma relação de certa proximidade; além do próprio Arthur, apenas o velho mordomo Henry conhecia a verdade sobre sua identidade.
“Portanto, só há uma verdade possível: aquela velha prostituta me traiu. Certamente ameaçaram Jessica. Caso contrário, por que esta alcateia de feras me atacaria sem motivo?”
Arthur fora dilacerado pelos lobos, mas agora, sem ferimentos no corpo, só podia atribuir tal milagre aos dons da deusa. Um leve sorriso curvou os lábios de Su Xia: RPG + aventura + simulação de grande escala = renascer para exibir-se. Doravante, ele era Arthur; haveria de tornar-se o rei Arthur, ascendendo ao ápice da existência. “Ahahahaha...”
...
“Soltem-me! Não disseram que, matando Arthur, não me arrastariam à Igreja? Malditos, sua palavra não vale nada!” Um repentino timbre feminino, límpido como cristal, soou aos ouvidos de Arthur renascido, que cessou sua gargalhada insana.
O dom de Arthur era “ouvir as vozes de todas as coisas”; os súditos frequentemente o viam conversar com pequenos animais e até com a relva, razão pela qual era tido como imbecil.
Aquela voz era, sem dúvida, a de Jessica. Como mestre supremo de jogos, ele não permitiria jamais que sua primeira heroína fosse, sem sentido, entregue à fogueira da Igreja, ainda que fosse ela a responsável por comandar a matilha que o matara. Para ser protagonista de um RPG, é preciso coragem diante da morte e, sobretudo, um peito aberto à justiça e ao ridículo.
Ainda que tu me traías mil vezes, hei de te tratar sempre como meu primeiro amor.
Empunhando uma velha espada de ferro encontrada ao lado, pisando a lama fétida e pegajosa, Arthur partiu rumo à casa de Jessica.
...
No centro da floresta maldita, havia uma clareira modesta, ao redor da qual flores e ervas vicejavam, entremeadas de algumas fileiras de milho. Ali, uma cabana precária, erguida de palha e folhas, servia de morada à feiticeira Jessica. No interior, havia apenas um leito rude de tábuas coberto por capim, janelas e frestas por onde o vento e a chuva invadiam, tornando os invernos indizivelmente cruéis. Uma mesa carcomida, faltando um canto, era o único outro móvel. Ao longo dos anos, o poder da Igreja crescera, ceifando toda esperança das jovens inocentes; a mãe de Jessica morrera na fogueira, condenada pela fé. Jessica, temendo a morte, mesmo vivendo destino pior que a morte, traíra a própria consciência ao usar seus poderes para matar o único que um dia a acolhera: Arthur. “Nenhum homem presta.” – foram estas as últimas palavras de sua mãe, delatada pelo próprio pai de Jessica por míseras quinze moedas de ouro. Salva apenas porque a mãe a instara a fugir, escapara da execução.
O velho mordomo Henry, olhar lascivo, fitava Jessica, presa entre dois capangas. O ancião de aspecto repulsivo, aos sessenta e quatro anos ainda dominado pela luxúria, sequer poupava a própria sobrinha – não fosse a intervenção de Arthur, teria consumado seu intento torpe.
“Feiticeiras são criaturas impuras, amaldiçoadas pelos demônios, e embora sejam belas, não nos é permitido tocá-las – que desperdício.” murmurou Henry.
“Meu bondoso senhor foi assassinado por uma bruxa maligna; agora, seu humilde mordomo lhe fará justiça.” Henry se lamentou, fingindo pesar.
“É mesmo, meu caro Henry? Não és tu quem vive a resmungar sobre as penúrias da casa, que nem se compara à de um simples lorde?” O belo Arthur surgiu dentre as árvores, sua cabeleira dourada reluzente como o próprio sol, voz mais melodiosa que a dos trovadores, olhos verdes como esmeraldas, pele alva e traços delicados capazes de cativar qualquer mulher. Não fosse o estigma da tolice, teria sido amado por muitas.
“Senhor... está vivo? Que alegria! Recebi a notícia de que a bruxa o havia matado e fui tomado de dor. Por isso, pretendia levar esta ingrata à fogueira.” Henry, velho patife experimentado, mentia sem titubear. Talvez o antigo, bondoso Arthur acreditasse em suas palavras, mas aquele que ali estava não mais se iludia.
“Poupe-me de tuas mentiras. Vão embora. Meu bom amigo Bedivere está a caminho; conheces bem o seu temperamento.” Arthur falou com indiferença. Era um blefe: Su Xia, em sua vida pregressa, nunca se metera em brigas, sendo apenas um entusiasta da tecnologia. Embora Arthur possuísse alguma habilidade marcial, não desejava arriscar-se a um fim prematuro.
Bedivere, um dos poucos amigos de Arthur, fora adotado pelo barão Yalin e feito seu escudeiro, tornando-se cavaleiro ainda jovem.
“Senhor, vejo que amadureceu. Vamos.” Henry, percebendo que não havia mais como prevalecer – e temendo o nome de Bedivere –, decidiu bater em retirada e reportar-se aos superiores.
Após a partida de Henry, Arthur enxugou o suor frio da testa. Jessica, de cabeça baixa, permanecia imóvel, incapaz de encará-lo, tomada pela culpa ou talvez pelo alívio de ter escapado da morte, chorando em silêncio. Vestia uma túnica larga de linho cinza, remendada em vários pontos, mas limpa; o capuz ocultava-lhe o rosto. Descalça, pisava a terra, figura magra e desamparada, denotando a carência de alimento.
Lembrando-se do próprio passado, do pai e da avó, Su Xia suspirou profundamente. Sua vida fora infeliz, mas comparada à dela, era insignificante. Vivendo sozinha naquele lugar, fazia tudo por conta própria; era forte, bela, e sua presença dissipava os últimos resquícios de hesitação no coração dele.
Ao absorver as memórias de Arthur, Su Xia compreendeu os muitos tabus daquele mundo: o quanto a nobreza era odiosa, e como tais regras eram inamovíveis.
Não – agora era diferente, pois ele estava ali.
O novo Arthur caminhou até Jessica, virou-se de costas e falou suavemente:
“Suba. Vamos para casa.”
“Para onde? Não me levarás à Igreja, levarás?” Jessica perguntou, enxugando as lágrimas.
“A Igreja não é minha casa. Vamos ao Solar do Barão. A partir de hoje, estás contratada por mim.” Arthur deu uma palmadinha no próprio ombro.
A feiticeira Jessica deitou-se às costas de Arthur, fechando suavemente os olhos. “Mamãe, ainda há homens bons no mundo.”